Para conservador, Nature e Science são tablóides
Vá lá que é uma crítica típica de conservador, mas o artigo de Iain Murray na National Review, "Science Goes Tabloid - In scientific journals, if it bleeds, it leads", merece alguma consideração (por falar nisso, tonto daquele que não prestar atenção no que dizem os conservadores).
É um ataque frontal a periódicos como BMJ, Nature e Science. Apóia-se em casos mais ou menos isolados, reconheça-se, mas em sua estridência capta um desenvolvimento que talvez seja preocupante: o fato de que essas publicações científicas, de uma década para cá, descobriram o filão da repercussão na imprensa leiga. Funciona assim: ofereça informação de qualidade em primeira mão para jornalistas de ciência, uma elite globalizada de repórteres, e as reportagens resultantes angariarão audiência para sua revista científica no mundo todo.
Foi uma revolução. O nível das reportagens sobre ciência aumentou por toda parte. Mas isso tornou os repórteres um pouco preguiçosos, pois havia comida farta no par de mãos que se estendia semanalmente. E isso foi também paulatina e sutilmente influenciando a pauta desses periódicos. Seria é claro necessário apoiar a conclusão com dados, de que não disponho, mas qualquer um que acompanhe esse tipo de imprensa há alguns anos sabe que há uma enorme receptividade nela para temas "saborosos" (um exemplo: reprodução sexual na Nature). Se não na pauta dos artigos científicos aceitos, ao menos na encomenda de comentários especializados, textos noticiosos e destaques nos resumos enviados a jornalistas de ciência por e-mail.
Dito isso, acho exagero afirmar que a Nature tem uma agenda a favor da idéia de aquecimento global (parece mais correto deduzir que a National Review é que tem uma agenda contra). Basta constatar que o pesquisador citado no final do texto é o cético de plantão Richard Lindzen, que se apóia numa visão retrógrada, positivista e ideológica da própria pesquisa científica para atacar o que entende ser um perigoso relativismo "pós-científico":
"Ciência é uma ferramenta de algum valor. Ela fornece nosso único modo de separar o que é verdadeiro do que é afirmado. Se abusarmos dessa ferramenta, ela não estará disponível quando precisarmos dela."
Como sói acontecer, a afirmação de Lindzen não é totalmente equivocada, porque de fato há risco na mobilização retórica da ciência. O que ele não percebe, não pode perceber, é que a retórica é inseparável da prática científica, e que cabe mantê-la dentro de limites por meio da crítica, e não arvorar-se autoritariamente em representante da verdade pura contra os infiéis conspurcadores.


3 Comments:
Maleite,
Não entendi nada da digressão filosófica no final, mas assino embaixo de tudo o que você (e o seu amigo conservador) disse sobre as revistas científicas e os jornalistas preguiçosos.
Claudio
By
Anônimo, at 25 de fevereiro de 2005 13:18
Claudio,
Em primeiro lugar, saiba que "digressão filosófica" para mim não é ofensa. Em geral soa como ofensa para jornalistas (preguiçosos), aqueles que Oscar Wilde qualificou como intelectuais que não lêem (nem jornal, seria o caso de adendar hoje em dia).
Em segundo lugar, a digressão até que é simples. Ela só fica difícil de entender para quem concorda com a afirmação de Lindzen de que a ciência EFETIVA E DEFINITIVAMENTE separa fatos de retórica.
Ou então minha própria retórica é que é ruim, sempre uma possibilidade a considerar.
By
Marcelo Leite, at 25 de fevereiro de 2005 13:50
Marcelo, concordo com seu comentário no post. É uma visão muito rançosa (a do Lindzen). Eu fico impressionada com a capacidade que essas pessoas têm de fechar os olhos para situações reais. Deve ser muito chato ver o mundo assim dentro de uma moldura.
Abs
Alessandra
By
Anônimo, at 25 de fevereiro de 2005 15:01
Postar um comentário
<< Home