Ciência em Dia

Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005

O gráfico que Larry não levou em conta

Aquele deslize de Lawarence Summers, reitor de Harvard, ao falar de (falta de) "aptidão intrínseca" como um dos fatores para explicar a baixa presença de mulheres entre expoentes da ciência não foi o primeiro lapso verbal do gajo, como se sabe (em 1991, se não falha a memória, quando no Banco Mundial, ele escreveu ou deixou circular em seu nome um famigerado memorando defendendo a economicidade de despejar lixo tóxico em países pobres). Mas, como economista, é sintomático que não tenha atentado para os dados que deveriam explicar o estado de coisas por ele interpretado.

Bem, há dados esclarecedores no jornal The New York Times de hoje, num artigo de W. MICHAEL COX e RICHARD ALM (curiosamente, da mesma confraria de Larry, como funcionários do Fed no Texas). O ex-vice-secretário do Tesouro dos EUA simplesmente não se deu conta de que a baixa representação se deve à ausência de mulheres nos cursos de doutorado nas últimas décadas, situação que vem no entanto mudando (v. gráfico abaixo).

Caveat 1 (cuidado): Para ficar ainda mais convincente, o artigo dos rapazes do Fed deveria incluir no texto e no gráfico dados sobre doutorados em física e matemática, também.

Caveat 2: Há também pesquisadores que acham que Larry não falou tanta besteira assim, como está no despacho da AP que encontrei na Wired.

5 Comments:

  • Larry Summers mencionou isso também. Ele falou de três fatores, nessa ordem, para a discrepância entre homens e mulheres no topo das carreiras de ciência:

    - Falta de disposição para dedicação exclusiva à carreira, abdicando de família e filhos (o que, obviamente, inclui entrada em cursos de pós-graduação)

    - Ausência de variações extremas na curva de desempenho das mulheres (que tendem a ficar todas na média, diferentemente dos homens, que costumam se distribuir menos homogeneamente, compondo tanto o grupo dos mais idiotas como o dos mais brilhantes)

    - Preconceito

    Eu li todo o discurso do Larry. Ele não falou bobagem, nem faltou com o tato. Acho que o pegou mesmo foi a pouca atenção que ele deu ao preconceito.

    Salvador Nogueira

    By Anonymous Anônimo, at 28 de fevereiro de 2005 16:16  

  • Salvador,

    "Falta de disposição para dedicação exclusiva à carreira, abdicando de família e filhos" é ao mesmo tempo uma constatação de fato e um tremendo juízo de valor (machista), pois pressupõe que (só) cabe à mulher a escolha entre abdicar da carreira ou dos filhos.

    Não é só que Larry deu pouca atenção preconceito, ele o reforçou, e por isso levou a pancada. Merecida, acho, mas realmente não li o discurso todo. Parabéns pela dedicação.

    By Blogger Marcelo Leite, at 28 de fevereiro de 2005 16:46  

  • Marcelo,

    ele teve o cuidado de, ao apontar isso, dizer que não concordava com os aspectos sociais que induziam esse tipo de ocorrência. Segundo Summers, ele estava apenas apontando os números, e OS NÚMEROS (os mesmos que estão no seu gráfico) dizem que há mais mulheres dispostas a abandonar a carreira por família e filhos do que homens, sobrando portanto menos delas no topo da cadeia alimentar dos cientistas e engenheiros.

    De toda forma, já que estamos no seio da discussão sobre o que é social e o que é natural, é preciso reconhecer certas características inerentes ao fato de ser mamífero que reforçam o papel "familiar" da mulher. Mulheres carregam seus bebês por nove meses no útero e depois têm de amamentá-los, o que naturalmente cria um laço muito mais forte entre os dois. Homens não têm o "equipamento" biológico para esse tipo de atividade.

    Mulheres também têm maior capacidade empática, o que faz delas pessoas mais hábeis em lidar com crianças.

    Adoraria que esse tipo de responsabilidade pudesse ser mais bem dividido entre homens e mulheres, mas, lamentavelmente, a natureza é sexista.

    Eu acho incrível que doa tanto às pessoas reconhecer a natureza diferenciada de homens e mulheres. É como disse uma entrevistada minha, sobre esse mesmo tema (e ela defende o Summers): "Ninguém fica aí estrilando porque há poucos homens estudando psicologia. Ninguém tenta ver se há um preconceito que os impede de prosseguir nessas carreiras".

    Em outras palavras, parece-me que temos uma certa tendência a enxergar injustiças somente nos casos em que as mulheres são desfavorecidas. Quando elas são favorecidas, a questão passa em branco.

    No frigir dos ovos, Summers fez o favor de colocar a sensibilidade exacerbada de lado e discutir a questão de forma objetiva e científica. Infelizmente, sua platéia (ainda) não estava "no ponto" para debater isso sem criar essa polêmica interminável e polarizar a coisa de uma maneira totalmente maniqueísta.

    My two cents.

    Salvador

    By Anonymous Anônimo, at 28 de fevereiro de 2005 21:08  

  • Ei Salvador,

    Obrigado pelos dois centavos e pelo carinhoso "maniqueísta".

    Não tenho problema algum com pesquisar, constatar e divulgar diferenças inatas entre homens e mulheres, até porque sou apreciador de várias delas. Meu problema é com dar o passo que leva de fatos a (justificação de) valores eles sim maniqueístas, algo que já foi chamado, com razão, de "falácia naturalista".

    Seu exemplo antimachista (psicologia) é só um exemplo. Ou você tem dúvida de que as mulheres sempre saíram perdendo, assim como os negros e os índios? Quem renega por princípio qualquer tipo de ação afirmativa, por ser pouco "científica", está objetivamente trabalhando pelo status quo, e ainda põe a culpa na natureza.

    By Blogger Marcelo Leite, at 28 de fevereiro de 2005 23:09  

  • Prezado Marcelo,

    Creio que a resposta a este debate está em uma passagem do filme "As Invasões Bárbaras" onde uma das mulheres do grupo de professores, personagens centrais do filme,explica exatamente este ponto da sociedade machista onde mulheres como ela foram "obrigadas" a abdicar , ou a diminuir a carga de estudos por alguns anos, de suas carreiras na academia em nome dos filhos e/ou família enquanto que seus colegas homens puderam ter dedicação exclusiva sem cobranças ou culpa e exatamente por isto todos estavam bem colocados na vida.
    E muito ao contrário do que ocorria com as mulheres, os homens eram apoiados e protegidos por suas mulheres/esposas para trabalharem e estudarem sem serem incomodados.
    As coisas estão mudando mas ainda falta muito para um divisão total de responsabilidades entre os casais.
    E isto, esta diferença de exigência e/ou capacidade de renúncia, faz toda a diferença e não os genes...

    By Anonymous Anônimo, at 23 de março de 2005 16:30  

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