Ciência em Dia

Domingo, Fevereiro 27, 2005

Leituras dominicais

1. Quem disse que filosofia (o abstrato do pensamento) nada tem a ver com poesia (o concreto da língua)? Os estudiosos vão dizer que a pergunta é ingênua, e o dilema, inteiramente superado, por exemplo na poesia metafísica – mas essa oposição vai muito bem, sim senhor, no plano do senso comum. E é bom deparar com antídotos, como o texto de George Sand sobre Schiller, no caderno Mais da Folha (Schiller é o autor do verso que clama “Freude!”, “Alegria!”, imortalizado para as massas no quarto movimento da Nona Sinfonia de Beethoven).

2. No mesmo Mais, encontro o texto sempre primoroso de Olgária Mattos, "Esportes radicais do destino", sobre dois filmes que não vi, “Garrincha – Estrela Solitária” e “Menina de Ouro”. Nada como uma filósofa para falar da cultura viva. Neste caso, é a expressão do pensamento que se aproxima da poesia, como na afirmação de que “viver é impreciso”, reminiscente de “viver é perigoso” e de “navegar é preciso”.

3. No caderno Aliás, do Estado, está o comentário de Francisco Foot Hardman (um sobrenome desses é quase um destino) sobre a entrevista de Lévi-Strauss já glosada neste blog. Foot comenta antiufanisticamente o trecho em que o antropólogo diz que o Brasil foi a experiência mais importante de sua vida. É irresistível reproduzir o início do último parágrafo de Foot a respeito de Tristes Trópicos:
“Por que é triste o olhar do verdadeiro viajante? Como ninguém, ele sabe que ‘o mundo começou sem o homem e se acabará sem ele’. Percebe que todos os mitos, estilos e linguagens são construções de sentido sempre à beira do vazio.”

4. Se você não agüenta mais a interminável exegese do último escorregão verbal de Lula, duas leituras recomendadas sobre coisas realmente importantes e difíceis de entender: a reportagem de Hudson Corrêa sobre a miséria nas aldeias indígenas de Dourados, em Mato Grosso do Sul (governado pelo PT), onde crianças morrem como moscas e jovens se matam como seres humanos, lamentavelmente curta; e a edição desanuviadora do debate sobre reforma universitária que reuniu Tarso Genro, Paulo Renato e Cristovam Buarque na Folha, há alguns dias. Execuções aplicadas da receita de bom jornalismo: mais reportagens (fatos) e menos ideologia (esquemas prontos).