Ciência em Dia

Domingo, Fevereiro 27, 2005

Efeito CSI

Coluna Ciência em Dia
Caderno Mais - Folha de S.Paulo
27 de fevereiro de 2005

MARCELO LEITE
COLUNISTA DA FOLHA

Quem tem TV paga em casa com certeza já tropeçou nas séries da família CSI, de "Crime Scene Investigation", nome dado a departamentos de polícia técnica nos EUA. E dificilmente deixou de ser fisgado pela mescla inverossímil de compromisso categórico com as vítimas e eficiência tecnocientífica que move os CSIs (investigadores) de Las Vegas, Miami e Nova York. A audiência é tanta que os CSIs de carne e osso começam a se perguntar se o tiro da celebridade não está saindo pela culatra.

(Bia Abramo já apontou, na Ilustrada, o substrato ideológico dessa forma de endeusamento da polícia norte-americana. Faz sentido, ainda que seja uma análise impiedosa demais para penetrar a couraça dos aficionados. Em benefício do programa seria possível dizer que ele comporta um bocado de nuances, como as esquisitices dos policiais e as politicagens da repartição -além dos casos sem solução, ainda que raros. A infalibilidade não é total.)

A preocupação com expectativas desmesuradas do público é tamanha que cientistas forenses americanos organizaram uma mesa-redonda na reunião anual da AAAS, encerrada há uma semana em Washington. A AAAS é a SBPC dos EUA, uma associação que faz o meio-de-campo entre esfera pública e comunidade científica. A febre CSI, portanto, não chega a ser uma concessão pop descabida.

Os especialistas se queixaram do irrealismo galopante das séries, em que testes toxicológicos e de DNA são feitos em minutos. Na vida real, demoram dias, semanas. No Brasil, meses -quando são feitos.

Já há relatos, entre policiais e promotores americanos, de vítimas e parentes insatisfeitos com a defasagem entre o que vêem na TV e a performance real dos CSIs. Os jurados também estariam exigentes demais e propensos a desqualificar as perícias apresentadas nos tribunais, por sua escassa quantidade ou baixa tecnologia. Nos estúdios de televisão, afinal, não há restrições orçamentárias para comprar máquinas de última geração. Nem uma fila de 200 mil a 300 mil testes de DNA por finalizar.

Não se deve subestimar a falta de bom senso das pessoas do público, decerto, mas não se trata de um equívoco seu. Elas estão somente se entusiasmando com o que atividade policial poderia ser e não é. Quando a TV mostrar coisas impossíveis de realizar, por razões científicas e não burocráticas, a saída é denunciar o engodo cultural -mas no universo CSI os exageros cabem melhor na categoria de licença televisiva aceitável do que na de fraude científica, cabe avisar.

Mal comparando, é o que acontece entre pacientes e médicos. Vários profissionais de saúde consideram que a disseminação de informações biomédicas entre leigos é um desserviço da imprensa (e de séries de TV como ER), por criarem expectativas irrealistas. Mais correto seria encará-lo como uma maneira de reequilibrar a relação de poder que se estabelece entre eles, fundada na assimetria da informação.

É o que Gil Grissom ensina o aprendiz Greg a fazer contra criminosos e seus advogados: tomar partido das vítimas e usar a informação a favor delas. Médicos e policiais também deveriam ficar sempre do lado mais fraco.

@ - cienciaemdia@uol.com.br

5 Comments:

  • Gostei muito da sua abordagem nesse artigo, pois as séries de televisão muitas vezes induzem as pessoas a confundir ficção e realidade. Não somente no caso que foi citado, mas é comum também em séries de ficção científica. Em alguns casos há "tecnobaboseira" demais, mas em outros existem inserções de conceitos científicos que são viáveis, como quando se referem a buracos negros, teletransporte (que até pouco tempo somente seria ficção), manipulação genética etc. As séries de televisão tem sempre a licença poética para inventar. O maior problema é a falta de cultura científica para a maioria da população.

    By Blogger Adilson J A de Oliveira, at 28 de fevereiro de 2005 11:52  

  • Pois é, Adilson, a falta de (in)formação científica do público é realmente a raiz do problema. As pessoas simplesmente não têm como discernir quando estão levando gato por lebre. Éclaro que ninguém pode ser especialista em tudo, mas um mínimo de "cultura geral" científica é hoje, na minha opinião, requisito básico para a autonomia intelectual e política. Daí a importância do jornalismo científico e da educação científica.

    By Blogger Marcelo Leite, at 28 de fevereiro de 2005 12:17  

  • Você tem toda a razão. Ter uma "cultura científica" hoje é fundamental. Na minha experiência como professor, percebo que muitos dos meus alunos, que estão em universidade de alto nível, não tem interesse de aprender algo fora da área de especialização. Parte da culpa é nossa, como professores, que nãofazemos fazemos as pontes necessárias para estimular isso. Quase sempre somos muito técnicos e pouco criativos.
    Concordo também com a importância do jornalismo científico e da educação científica. Gasto parte do meu tempo justamente fazendo isso através de colunas e palestras. É uma atividade muito gratificante e também considero uma responsabilidade contribuir com a difusão da Ciência.

    By Blogger Adilson J A de Oliveira, at 1 de março de 2005 17:49  

  • Aí, Marcelo... faz tempo que tento dizer pra quem conheço e pros meus leitores que ficção é ficção.Porém, é muito difícil. E a televisão é a principal semeadora do problema. As novelas tentam seguir o tempo real, quando não são 'históricas'. Natal na novela é no Natal, Carnaval, idem. Mas é merchandising. E as pessoas não percebem mais. E fica todo mundo querendo que tudo seja rápido, eficaz, bonito e justo na vida real. E, acho eu, isso não tem mais volta. Vamos cada vez mais misturar tudo. E viver no lusco-fusco.

    By Anonymous Werneck, at 28 de junho de 2005 14:21  

  • Não sou professora, nem jornalista, nem cientista, especialista ou qualquer outro "ista"... Sou apenas uma pessoa que adora TV e que é fã de CSI, mais do Las Vegas do que dos outro dois... Aliás, sou "fã do Grisson", de suas pesquisas, testes, observações. Aliás, também gostei muito da abordagem no artigo e dos comentários. E que fique claro que TV Ficção é Ficção e CSI Las Vegas é muito gostoso de assitir!

    By Anonymous Patricia, at 30 de junho de 2005 13:34  

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