Ciência em Dia

Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005

Conselho de propaganda em biotecnologia

Circula amanhã em vários jornais brasileiros mais uma peça de propaganda pró-transgênicos compilada pela "ONG" CIB, Conselho de Informações sobre Biotecnologia (leia-se: indústria). É a brochura Transgênicos - Você tem o direito de conhecer, 16 páginas e 10 itens de argumentos velhos e unilaterais repisados como se fossem a pura e simples verdade científica.

Pelo visto, nada foi aprendido em mais de seis anos de polêmica e polarização estéreis no Brasil (estado de coisas pelo qual, obviamente, a indústria não é a única responsável). As razões apresentadas são as de sempre: a biotecnologia vai acabar com a fome no mundo, alimentos transgênicos são exaustivamente testados, a biotecnologia existe há milênios e apenas se tornou mais precisa com a engenharia genética, a admirável nova agricultura vai empregar menos substâncias tóxicas, os alimentos geneticamente modificados s(er)ão mais nutritivos e fazem bem à saúde.

Em poucas palavras: está tudo sob controle. Confie em nós. Nós é que sabemos das coisas. Não dê ouvidos a ignorantes. O progresso está do nosso lado.

Não há uma palavra sobre surgimento de resistência, entre insetos, contra genes Bt enxertados em milho e algodão. Fala-se com orgulho do crescimento vertiginoso da safra de soja transgênica no Brasil, mas providencialmente sem mencionar que ela se expandiu ilegalmente (um militante mais extremado poderia concluir que se trata de apologia do crime...). Os redatores devem também ter concluído que não pegaria bem falar de corda em casa de enforcado, ou seja, de poluição genética (como o escândalo da contaminação de variedades crioulas de milho no México com pólen de plantas geneticamente modficadas).

Custa a crer que pesquisadores do renome de Crodowaldo Pavan, Marcelo Menossi e Elibio Rech tenham emprestado sua chancela a esse tipo de conversa mole, que de científica tem muito pouco. Por uma única razão: não existe ciência onde não há ceticismo, incerteza e contraditório. Ao se apresentar como a voz da autoridade e o monolito da verdade, a cartilha do CIB só faz travestir de ciência o que na realidade é propaganda.