Ciência em Dia

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Este blog mudou

A partir do dia 1o. de março, este Ciência em Dia tem endereço novo. A mudança foi fruto de uma proposta decente de amigos do UOL.

No melhor estilo Lampedusa, muda tudo para permanecer tudo igual.

A surra merecida da Razão

Pesco no blog 3quarksdaily a seguinte frase de Will Englund no Baltimore Sun:
"A Razão tem apanhado muito recentemente, e não é difícil ver por quê. Se os americanos estão se bandeando para a fé religiosa, o dogma revelado, o criacionismo, para um lugar onde ninguém presta tributo à lógica baseada em se x então y, é porque a Razão nos deu um mundo que quase não faz mais sentido."

O gráfico que Larry não levou em conta

Aquele deslize de Lawarence Summers, reitor de Harvard, ao falar de (falta de) "aptidão intrínseca" como um dos fatores para explicar a baixa presença de mulheres entre expoentes da ciência não foi o primeiro lapso verbal do gajo, como se sabe (em 1991, se não falha a memória, quando no Banco Mundial, ele escreveu ou deixou circular em seu nome um famigerado memorando defendendo a economicidade de despejar lixo tóxico em países pobres). Mas, como economista, é sintomático que não tenha atentado para os dados que deveriam explicar o estado de coisas por ele interpretado.

Bem, há dados esclarecedores no jornal The New York Times de hoje, num artigo de W. MICHAEL COX e RICHARD ALM (curiosamente, da mesma confraria de Larry, como funcionários do Fed no Texas). O ex-vice-secretário do Tesouro dos EUA simplesmente não se deu conta de que a baixa representação se deve à ausência de mulheres nos cursos de doutorado nas últimas décadas, situação que vem no entanto mudando (v. gráfico abaixo).

Caveat 1 (cuidado): Para ficar ainda mais convincente, o artigo dos rapazes do Fed deveria incluir no texto e no gráfico dados sobre doutorados em física e matemática, também.

Caveat 2: Há também pesquisadores que acham que Larry não falou tanta besteira assim, como está no despacho da AP que encontrei na Wired.

Jornalismo científico de verdade

Não deixe de ler a reportagem de Herton Escobar na pág. A12 do Estado de S.Paulo de hoje, "Pesquisador diz que publicações científicas discriminam brasileiros". É um relato da luta de quatro anos de Antonio Carlos Camargo, do Centro de Toxinologia Aplicada (CAT) do Instituto Butantan, para publicar um artigo mostrando que a proteína NUDEL, anunciada em 2001, era na verdade a EOPA descrita pelo grupo brasileiro em 1973. O trabalho só saiu depois que a empresa Merck Sharp & Dohme entrou no circuito, pois o pessoal do CAT também patenteou o sítio ativo da NUDEL/EOPA, que parece exercer função importante no desenvolvimento do cérebro e na esquizofrenia.

domingo, fevereiro 27, 2005

Efeito CSI

Coluna Ciência em Dia
Caderno Mais - Folha de S.Paulo
27 de fevereiro de 2005

MARCELO LEITE
COLUNISTA DA FOLHA

Quem tem TV paga em casa com certeza já tropeçou nas séries da família CSI, de "Crime Scene Investigation", nome dado a departamentos de polícia técnica nos EUA. E dificilmente deixou de ser fisgado pela mescla inverossímil de compromisso categórico com as vítimas e eficiência tecnocientífica que move os CSIs (investigadores) de Las Vegas, Miami e Nova York. A audiência é tanta que os CSIs de carne e osso começam a se perguntar se o tiro da celebridade não está saindo pela culatra.

(Bia Abramo já apontou, na Ilustrada, o substrato ideológico dessa forma de endeusamento da polícia norte-americana. Faz sentido, ainda que seja uma análise impiedosa demais para penetrar a couraça dos aficionados. Em benefício do programa seria possível dizer que ele comporta um bocado de nuances, como as esquisitices dos policiais e as politicagens da repartição -além dos casos sem solução, ainda que raros. A infalibilidade não é total.)

A preocupação com expectativas desmesuradas do público é tamanha que cientistas forenses americanos organizaram uma mesa-redonda na reunião anual da AAAS, encerrada há uma semana em Washington. A AAAS é a SBPC dos EUA, uma associação que faz o meio-de-campo entre esfera pública e comunidade científica. A febre CSI, portanto, não chega a ser uma concessão pop descabida.

Os especialistas se queixaram do irrealismo galopante das séries, em que testes toxicológicos e de DNA são feitos em minutos. Na vida real, demoram dias, semanas. No Brasil, meses -quando são feitos.

Já há relatos, entre policiais e promotores americanos, de vítimas e parentes insatisfeitos com a defasagem entre o que vêem na TV e a performance real dos CSIs. Os jurados também estariam exigentes demais e propensos a desqualificar as perícias apresentadas nos tribunais, por sua escassa quantidade ou baixa tecnologia. Nos estúdios de televisão, afinal, não há restrições orçamentárias para comprar máquinas de última geração. Nem uma fila de 200 mil a 300 mil testes de DNA por finalizar.

Não se deve subestimar a falta de bom senso das pessoas do público, decerto, mas não se trata de um equívoco seu. Elas estão somente se entusiasmando com o que atividade policial poderia ser e não é. Quando a TV mostrar coisas impossíveis de realizar, por razões científicas e não burocráticas, a saída é denunciar o engodo cultural -mas no universo CSI os exageros cabem melhor na categoria de licença televisiva aceitável do que na de fraude científica, cabe avisar.

Mal comparando, é o que acontece entre pacientes e médicos. Vários profissionais de saúde consideram que a disseminação de informações biomédicas entre leigos é um desserviço da imprensa (e de séries de TV como ER), por criarem expectativas irrealistas. Mais correto seria encará-lo como uma maneira de reequilibrar a relação de poder que se estabelece entre eles, fundada na assimetria da informação.

É o que Gil Grissom ensina o aprendiz Greg a fazer contra criminosos e seus advogados: tomar partido das vítimas e usar a informação a favor delas. Médicos e policiais também deveriam ficar sempre do lado mais fraco.

@ - cienciaemdia@uol.com.br

Leituras dominicais

1. Quem disse que filosofia (o abstrato do pensamento) nada tem a ver com poesia (o concreto da língua)? Os estudiosos vão dizer que a pergunta é ingênua, e o dilema, inteiramente superado, por exemplo na poesia metafísica – mas essa oposição vai muito bem, sim senhor, no plano do senso comum. E é bom deparar com antídotos, como o texto de George Sand sobre Schiller, no caderno Mais da Folha (Schiller é o autor do verso que clama “Freude!”, “Alegria!”, imortalizado para as massas no quarto movimento da Nona Sinfonia de Beethoven).

2. No mesmo Mais, encontro o texto sempre primoroso de Olgária Mattos, "Esportes radicais do destino", sobre dois filmes que não vi, “Garrincha – Estrela Solitária” e “Menina de Ouro”. Nada como uma filósofa para falar da cultura viva. Neste caso, é a expressão do pensamento que se aproxima da poesia, como na afirmação de que “viver é impreciso”, reminiscente de “viver é perigoso” e de “navegar é preciso”.

3. No caderno Aliás, do Estado, está o comentário de Francisco Foot Hardman (um sobrenome desses é quase um destino) sobre a entrevista de Lévi-Strauss já glosada neste blog. Foot comenta antiufanisticamente o trecho em que o antropólogo diz que o Brasil foi a experiência mais importante de sua vida. É irresistível reproduzir o início do último parágrafo de Foot a respeito de Tristes Trópicos:
“Por que é triste o olhar do verdadeiro viajante? Como ninguém, ele sabe que ‘o mundo começou sem o homem e se acabará sem ele’. Percebe que todos os mitos, estilos e linguagens são construções de sentido sempre à beira do vazio.”

4. Se você não agüenta mais a interminável exegese do último escorregão verbal de Lula, duas leituras recomendadas sobre coisas realmente importantes e difíceis de entender: a reportagem de Hudson Corrêa sobre a miséria nas aldeias indígenas de Dourados, em Mato Grosso do Sul (governado pelo PT), onde crianças morrem como moscas e jovens se matam como seres humanos, lamentavelmente curta; e a edição desanuviadora do debate sobre reforma universitária que reuniu Tarso Genro, Paulo Renato e Cristovam Buarque na Folha, há alguns dias. Execuções aplicadas da receita de bom jornalismo: mais reportagens (fatos) e menos ideologia (esquemas prontos).

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Temporada de caça ao ambientalista

Você provavelmente jamais ouviu falar em Marcelo Freitas, mas o jornalista está conseguindo seus 15 minutos de fama na internet com a nota que escreveu sobre "A guerrilheira verde", como ele chama Mirian Prochnow, da RMA (Rede de ONGs da Mata Atlântica). O pivô da nota são as dificuldades enfrentadas pela usina hidrelética de Barra Grande (SC/RS), que Prochnow estaria combatendo "de arma em punho". Levantou um tsunami de protestos.

Não conheço Mirian Prochnow nem Marcelo Freitas, tampouco me sinto inclinado a ler uma publicação com o nome de IstoÉ Dinheiro. Mas já cansei de ver filmes como o relatado na nota, e não gostei. Na semana em que foram assassinados Dorothy Stang (Anapu, PA) e Dionísio Ribeiro Filho (Tinguá, RJ), é no mínimo mau gosto pregar uma estrela verde dessas no peito de alguém. Mas, no fundo, não é muito diferente da maneira como a revista Exame trata a ministra Marina Silva, para citar um exemplo.

Bem, quem quiser saber um pouco mais sobre quem é mesmo Mirian Prochnow, uma possibilidade é recorrer a fontes menos turvas, como sua entrevista ao sítio do ISA (Instituto Socioambiental).

Para conservador, Nature e Science são tablóides

Vá lá que é uma crítica típica de conservador, mas o artigo de Iain Murray na National Review, "Science Goes Tabloid - In scientific journals, if it bleeds, it leads", merece alguma consideração (por falar nisso, tonto daquele que não prestar atenção no que dizem os conservadores).

É um ataque frontal a periódicos como BMJ, Nature e Science. Apóia-se em casos mais ou menos isolados, reconheça-se, mas em sua estridência capta um desenvolvimento que talvez seja preocupante: o fato de que essas publicações científicas, de uma década para cá, descobriram o filão da repercussão na imprensa leiga. Funciona assim: ofereça informação de qualidade em primeira mão para jornalistas de ciência, uma elite globalizada de repórteres, e as reportagens resultantes angariarão audiência para sua revista científica no mundo todo.

Foi uma revolução. O nível das reportagens sobre ciência aumentou por toda parte. Mas isso tornou os repórteres um pouco preguiçosos, pois havia comida farta no par de mãos que se estendia semanalmente. E isso foi também paulatina e sutilmente influenciando a pauta desses periódicos. Seria é claro necessário apoiar a conclusão com dados, de que não disponho, mas qualquer um que acompanhe esse tipo de imprensa há alguns anos sabe que há uma enorme receptividade nela para temas "saborosos" (um exemplo: reprodução sexual na Nature). Se não na pauta dos artigos científicos aceitos, ao menos na encomenda de comentários especializados, textos noticiosos e destaques nos resumos enviados a jornalistas de ciência por e-mail.

Dito isso, acho exagero afirmar que a Nature tem uma agenda a favor da idéia de aquecimento global (parece mais correto deduzir que a National Review é que tem uma agenda contra). Basta constatar que o pesquisador citado no final do texto é o cético de plantão Richard Lindzen, que se apóia numa visão retrógrada, positivista e ideológica da própria pesquisa científica para atacar o que entende ser um perigoso relativismo "pós-científico":
"Ciência é uma ferramenta de algum valor. Ela fornece nosso único modo de separar o que é verdadeiro do que é afirmado. Se abusarmos dessa ferramenta, ela não estará disponível quando precisarmos dela."

Como sói acontecer, a afirmação de Lindzen não é totalmente equivocada, porque de fato há risco na mobilização retórica da ciência. O que ele não percebe, não pode perceber, é que a retórica é inseparável da prática científica, e que cabe mantê-la dentro de limites por meio da crítica, e não arvorar-se autoritariamente em representante da verdade pura contra os infiéis conspurcadores.